O impacto da inteligência artificial sobre o emprego não será sentido de maneira igualitária em todo o mundo. Diferentes países serão afetados de formas distintas. Desigualdades nos sistemas políticos, nos níveis de desenvolvimento econômico, nas estruturas do mercado de trabalho e no acesso à infraestrutura necessária para a IA (incluindo energia) estão moldando como cada região se prepara — e como provavelmente enfrentará — as disrupções provocadas pela tecnologia.
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Países menores e mais ricos tendem a estar em melhor posição para gerenciar a escala e a velocidade da substituição de empregos. Algumas sociedades de baixa renda, por sua vez, podem ser poupadas dos piores efeitos da disrupção devido à baixa penetração dos serviços de IA nesses mercados. Já os países de renda média e alta podem enfrentar turbulências sociais — e até instabilidade — como resultado de uma automação rápida e imprevisível.
Os Estados Unidos, atualmente líderes no desenvolvimento de inteligência artificial, estão significativamente expostos às disrupções provocadas pela tecnologia — especialmente no setor de serviços. Um estudo de 2023 revelou que trabalhadores altamente qualificados em funções profissionais e técnicas estão entre os mais vulneráveis à substituição. Setores baseados no conhecimento, como finanças, serviços jurídicos e atendimento ao cliente, já estão eliminando cargos de entrada à medida que a IA automatiza tarefas rotineiras.
Empresas de tecnologia começaram a reduzir suas equipes, aproveitando também essas demissões como sinalizações para governos e o mercado. Mais de 95 mil trabalhadores de empresas de tecnologia perderam seus empregos em 2024. Apesar de sua vantagem no campo da IA, a economia americana, fortemente orientada para serviços, está particularmente exposta aos efeitos negativos da automação.
A Ásia está na linha de frente da automação impulsionada por IA nos setores de manufatura e serviços. E não se trata apenas da China — países como a Coreia do Sul também estão investindo em “fábricas inteligentes” e operações logísticas, com instalações de produção totalmente automatizadas se tornando cada vez mais comuns. Índia e Filipinas, importantes polos de terceirização em TI e atendimento ao cliente, enfrentam uma pressão crescente à medida que a IA ameaça substituir a mão de obra humana nesses setores. O Japão, por sua vez, com sua força de trabalho em declínio, enxerga a IA mais como uma solução do que como uma ameaça. No entanto, a exposição mais ampla da região à automação reflete sua profunda dependência da manufatura e da terceirização, tornando-a altamente vulnerável à substituição de empregos por IA em um mundo marcado por turbulências geopolíticas.
A Europa, por outro lado, está dando os primeiros passos regulatórios para lidar com o impacto da IA no mercado de trabalho. A Lei de Inteligência Artificial da União Europeia busca regulamentar aplicações consideradas de alto risco — inclusive aquelas que afetam o emprego. Ainda assim, no Leste Europeu, onde a competitividade econômica depende da manufatura e da mão de obra de baixo custo, a automação já começa a comprometer a segurança no trabalho. Polônia e Hungria, por exemplo, registram um aumento na automação de linhas de produção. Nas economias baseadas no conhecimento da Europa Ocidental, os riscos se assemelham aos enfrentados pelos Estados Unidos — especialmente nos setores financeiro e de serviços profissionais.
Os Estados do Golfo, ricos em petróleo, estão investindo pesadamente em inteligência artificial como parte de seus esforços de diversificação econômica, buscando reduzir a dependência dos hidrocarbonetos. Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar estão criando polos de IA e integrando a tecnologia em serviços governamentais e operações logísticas. Os Emirados, inclusive, contam com um Ministro de Estado para a Inteligência Artificial. No entanto, com altos índices de desemprego entre os jovens e forte dependência de mão de obra estrangeira, esses países enfrentam riscos consideráveis caso a IA reduza a demanda por empregos de baixa qualificação — o que pode agravar ainda mais as desigualdades.
Na América Latina, a automação ameaça não apenas os setores de manufatura e agricultura, mas também áreas como mineração, logística e atendimento ao cliente. Segundo estimativas da OIT e do Banco Mundial, entre 2% e 5% de todos os empregos na região estão em risco. E não se trata apenas de jovens atuando em serviços formais — a força de trabalho humana nas operações de mineração, na logística e em centros de distribuição também está sob pressão. Call centers no Méxicoe na Colômbia enfrentam uma redução na demanda por atendentes humanos, à medida que bots de atendimento ao cliente baseados em IA ganham espaço. E tecnologias como monitoramento de safras por IA, irrigação automatizada e colheita robotizada ameaçam substituir trabalhadores rurais, especialmente no Brasil e na Argentina. Ainda assim, o grande mercado de trabalho informal da região pode servir de amortecedor para parte desse impacto.
Embora a maioria dos africanos esteja otimista quanto ao potencial transformador da inteligência artificial, sua adoção ainda é limitada devido à infraestrutura precária e à falta de investimentos. No entanto, a economia digital do continente, que cresce rapidamente, pode permitir que a IA desempenhe um papel decisivo em serviços financeiros, logística e agricultura. Uma avaliação recente sugere que a IA pode impulsionar a produtividade e ampliar o acesso a serviços — mas, sem uma gestão cuidadosa, há o risco de aprofundar as desigualdades. Assim como na América Latina, os baixos salários e os altos índices de informalidade reduzem os incentivos financeiros para a automação. Ironicamente, esses incentivos econômicos mais fracos podem proteger essas economias dos piores efeitos da disrupção laboral provocada pela IA.
Ninguém está preparado
A escala e a velocidade dos avanços recentes em inteligência artificial pegaram muitos governos e empresas de surpresa. É verdade que alguns estão tomando medidas proativas para preparar suas forças de trabalho para essa transformação. Centenas de leis, regulamentos, diretrizes e padrões relacionados à IA surgiram nos últimos anos— embora poucos tenham força legal. Uma exceção é a Lei de Inteligência Artificial da União Europeia, que busca estabelecer um arcabouço jurídico abrangente para o uso da IA, abordando riscos como a substituição de empregos e questões éticas. China e Coreia do Sul também desenvolveram estratégias nacionais de IA, com foco em política industrial e autossuficiência tecnológica, buscando liderar nos campos da inteligência artificial e automação, ao mesmo tempo em que impulsionam seus setores manufatureiros.
Apesar das tentativas recentes de aumentar a supervisão sobre a inteligência artificial, os Estados Unidos têm adotado uma abordagem cada vez mais laissez-faire, priorizando a inovação por meio da redução de barreiras regulatórias. Essa postura de “regulação mínima”, no entanto, levanta preocupações quanto aos potenciais custos sociais da rápida adoção da IA — incluindo a substituição em massa de empregos, o aprofundamento das desigualdades e o enfraquecimento da democracia.
Outros países, especialmente no Sul Global, têm se mantido, em grande parte, à margem do debate regulatório, seja por falta de conscientização, capacidade técnica ou infraestrutura para enfrentar essas questões de forma abrangente. Como resultado, o cenário regulatório global permanece fragmentado, com disparidades significativas na forma como os países estão se preparando para os impactos da automação sobre a força de trabalho.
As empresas estão sob pressão para adotar a inteligência artificial de forma rápida e profunda, com receio de perder competitividade. Essa é, ao menos, a narrativa hiperbólica que as empresas de IA conseguiram impor — e está funcionando: uma pesquisa recente com mil executivos revelou que 58% das empresas estão adotando IA por pressão competitiva, e 70% afirmam que os avanços tecnológicos estão ocorrendo mais rápido do que sua força de trabalho consegue acompanhar. Outra pesquisa sugere que mais de 40% dos empregadores ao redor do mundo planejam reduzir suas equipes à medida que a IA transforma o mercado de trabalho.
No meio dessa corrida para adotar a tecnologia, está se perdendo algo essencial: uma reflexão séria sobre a transição da força de trabalho. Instituições financeiras, empresas de consultoria, universidades e organizações sem fins lucrativos têm soado o alarme sobre os impactos econômicos da IA, mas ofereceram poucas soluções além da requalificação profissional e da Renda Básica Universal (UBI). Governos e empresas enfrentam um desafio fundamental: como aproveitar os benefícios da IA sem deixar os trabalhadores desprotegidos frente ao deslocamento.
A automação impulsionada pela inteligência artificial já não é uma possibilidade futura — ela já está remodelando os mercados de trabalho. À medida que a automação reduz a presença humana nas empresas, ela também enfraquece o poder dos sindicatos e da negociação coletiva, aprofundando a valorização do capital em detrimento do trabalho.
Se a IA promoverá prosperidade ampla ou aprofundará a desigualdade e a instabilidade social dependerá não apenas dos imperativos de CEOs e acionistas de empresas de tecnologia, mas das decisões proativas tomadas por formuladores de políticas públicas, lideranças empresariais, representantes sindicais e trabalhadores nos próximos anos.
A questão central não é se a IA irá ou não provocar disrupções nos mercados de trabalho — isso é inevitável —, mas sim como as sociedades irão administrar essa transformação e que tipos de “novos pactos” serão firmados para lidar com seus efeitos colaterais. Vale lembrar que, embora as três últimas revoluções industriais tenham criado mais empregos do que destruído, as transições foram longas e dolorosas. Desta vez, o ritmo da mudança será mais rápido e mais profundo, exigindo ações ágeis e esclarecidas.
No mínimo, os governos precisam preparar suas sociedades para desenvolver um novo contrato social, priorizar programas de requalificação profissional, fortalecer as redes de proteção social e explorar alternativas como a Renda Básica Universal (UBI) para apoiar trabalhadores deslocados pela automação. Devem também fomentar ativamente novas indústrias capazes de absorver essa força de trabalho.
As empresas, por sua vez, precisarão repensar suas estratégias de recursos humanos e adotar modelos de implementação de IA centrados nas pessoas, priorizando a colaboração entre humanos e máquinas, em vez da substituição dos primeiros pelos segundos. A promessa da IA é imensa — desde o aumento da produtividade até a criação de novas oportunidades econômicas e, de fato, a solução de grandes problemas coletivos. No entanto, sem um esforço coordenado e focado, é pouco provável que a tecnologia se desenvolva de forma a beneficiar a sociedade como um todo.