A inteligência artificial talvez seja o maior fator de disrupção da história da humanidade. O CEO do Google, Sundar Pichai, chegou a descrevê-la como “mais profunda que a invenção do fogo ou da eletricidade”. Já o CEO da OpenAI, Sam Altman,afirma que ela tem o poder de curar a maioria das doenças, resolver a crise climática, oferecer educação personalizada para toda a população mundial e levar a outras “conquistas extraordinárias”.
Não há dúvidas de que a IA contribuirá para a solução de problemas complexos, ao mesmo tempo em que gerará fortunas colossais para empresas de tecnologia e investidores. No entanto, a rápida disseminação da IA generativa e do aprendizado de máquina também irá automatizar grandes segmentos da força de trabalho global, afetando tanto empregos administrativos quanto operacionais. E, embora milhões de novas vagas certamente sejam criadas, ainda não está claro o que acontecerá quando bilhões correm o risco de serem eliminados.
Em meio às promessas entusiasmadas de ganhos de produtividade trazidos pela inteligência artificial, crescem as preocupações de que as consequências políticas, sociais e econômicas da substituição em massa da força de trabalho aprofundem a desigualdade, sobrecarreguem os sistemas públicos de proteção social e alimentem a instabilidade.
Uma pesquisa realizada em 2023, em 31 países, revelou que mais da metade dos entrevistados se sentia “apreensiva” com os impactos da IA em suas vidas cotidianas e acreditava que ela teria efeitos negativos sobre seus empregos. Também aumentam os alertas sobre a forma como a IA está sendo transformada em arma, com potencial de acelerar desde a fragmentação geopolítica até conflitos nucleares. Embora especialistas estejam soando o alarme, está cada vez mais evidente que governos, empresas e sociedades não estão preparados para a revolução da IA que se aproxima.
A revolução da IA que se aproxima
A ideia de que as máquinas substituiriam o trabalho humano um dia está longe de ser nova. Ela aparece em romances, filmes e em inúmeros relatórios econômicos ao longo dos séculos. Em 2013, Carl-Benedikt Frey e Michael Osborne, da Universidade de Oxford, tentaram quantificar os custos humanos dessa transformação, estimando que “47% do total dos empregos nos Estados Unidos estão em categoria de alto risco, o que significa que as ocupações associadas são potencialmente automatizáveis”. O estudo desencadeou um debate global sobre as amplas consequências da automação — não apenas para empregos na indústria, mas também para funções nos setores de serviços e baseadas no conhecimento.
Avançando para os dias de hoje, as capacidades da inteligência artificial estão evoluindo mais rápido do que quase todos previam. Em novembro de 2022, a OpenAI lançou o ChatGPT, o que acelerou dramaticamente a corrida pela IA. Já em 2023, o Goldman Sachs projetouque “aproximadamente dois terços dos empregos atuais estão expostos a algum grau de automação por IA” e que até 300 milhões de postos de trabalho no mundo todo poderiam ser eliminados ou significativamente transformados pela tecnologia. Este mês, Bill Gates, fundador da Microsoft, disse que uma semana de trabalho de 2 dias é uma possibilidade nos próximos 10 anos.
Uma análise mais detalhada da McKinsey estimou que “a IA generativa e outras tecnologias têm o potencial de automatizar atividades de trabalho que hoje consomem até 70% do tempo dos funcionários”. O Brookings apontou que “mais de 30% de todos os trabalhadores podem ver pelo menos 50% das tarefas de sua ocupação serem afetadas pela IA generativa”. Embora as metodologias e estimativas variem, todos esses estudos convergem para uma mesma conclusão: a IA transformará profundamente o mundo do trabalho.
Embora seja tentador comparar os impactos da automação por IA com os das revoluções industriais do passado, essa visão é limitada. A IA é, possivelmente, mais transformadora do que o motor a combustão ou a própria internet, pois representa uma mudança fundamental na forma como decisões são tomadas e tarefas são executadas. Ela não é apenas uma nova ferramenta ou fonte de energia, mas um sistema capaz de aprender, se adaptar e tomar decisões de forma autônoma em praticamente todos os setores da economia e aspectos da vida humana. Justamente por possuir essas capacidades, por escalar de forma exponencial e não estar limitada por fronteiras geográficas, a IA já começou a superar os seres humanos em diversas funções. Isso sinaliza o advento de uma era de inteligência pós-humana.
O Goldman Sachs estima que 46% das tarefas administrativas e 44% das atividades jurídicas poderão ser automatizadas na próxima década. Nos setores financeiro e jurídico, funções como análise de contratos, detecção de fraudes e consultoria financeira estão sendo cada vez mais desempenhadas por sistemas de IA, que processam dados com maior rapidez e precisão do que os humanos. Instituições financeiras vêm adotando rapidamente a IA para reduzir custos e aumentar a eficiência, o que coloca em risco muitas funções de entrada nesses mercados. Bancos globais podem cortar até 200 mil empregos nos próximos três a cinco anos em razão da automação por IA.
Ironicamente, empregos em programação e engenharia de software estão entre os mais vulneráveis à expansão da inteligência artificial. Embora se espere que a IA aumente a produtividade e torne tarefas rotineiras mais eficientes —beneficiandotanto programadores quanto não programadores —, alguns profissionais da área confessam estar se tornando excessivamente dependentes das sugestões geradas pela IA, o que pode enfraquecer suas habilidades de resolução de problemas.
A Anthropic, uma das principais desenvolvedoras de sistemas de IA generativa, lançou recentemente um Índice Econômico baseado em milhões de interações anônimas com seu chatbot Claude. O índice revela uma adoção massiva da IA na engenharia de software: “37,2% das consultas enviadas ao Claude pertencem a essa categoria, abrangendo tarefas como modificação de software, depuração de código e resolução de problemas de rede”.
A inteligência artificial também já supera os seres humanos em uma gama crescente de funções relacionadas à imagem médica e ao diagnóstico. Embora os médicos não devam ser totalmente substituídos, funções de apoio estão particularmente vulneráveis — e profissionais da saúde começam a demonstrar apreensão. Analistas insistem que os empregos altamente qualificados não estão em risco, mesmo com a implantação crescente de ferramentas de diagnóstico baseadas em IA e sistemas de gestão de pacientes em hospitais e clínicas ao redor do mundo.
Ao mesmo tempo, os setores criativos também enfrentam uma disrupção significativa, à medida que textos gerados por IA e mídias sintéticas evoluem. A demanda por jornalistas, redatores publicitários e designers humanos já está em queda, enquanto o conteúdo gerado por IA (incluindo o chamado “slop” — a crescente quantidade de textos, áudios e vídeos de baixa qualidade que inundam as redes sociais) se expande. E, na educação, sistemas de tutoria baseados em IA, plataformas de aprendizagem adaptativa e correção automatizada podem reduzir a necessidade de professores humanos — e não apenas em ambientes de ensino remoto.
Provavelmente, o impacto mais dramático da inteligência artificial nos próximos anos ocorrerá no setor industrial. Vídeos recentes da China oferecem um vislumbre de um futuro em que fábricas operam 24 horas por dia, 7 dias por semana, com quase total automação — exceto por um pequeno número de funções de supervisão. A maioria das tarefas é realizada por robôs movidos por IA e por tecnologias desenvolvidas para gerenciar tanto a produção quanto, cada vez mais, as funções de apoio.
Diferentemente dos humanos, os robôs não precisam de luz para operar nessas chamadas “fábricas escuras”. A CapGemini as descreve como locais “onde matérias-primas entram e produtos acabados saem, com pouca ou nenhuma intervenção humana”. Leia novamente essa frase. As implicações são profundas e vertiginosas: ganhos de eficiência (capital) que vêm ao custo dos meios de subsistência humana (trabalho), com uma espiral descendente acelerada para este último, caso não sejam implementadas salvaguardas.
Fatores de alento da IA
Consultores de gestão argumentam com confiança que, assim como em transformações tecnológicas anteriores, as perdas de empregos causadas pela IA serão compensadas por novas oportunidades. Entusiastas da tecnologia acrescentam que ela ficará encarregada, principalmente, de tarefas repetitivas ou entediantes, liberando os seres humanos para atividades mais criativas — como permitir que médicos passem mais tempo com seus pacientes, professores se envolvam mais com seus alunos, advogados se concentrem nas relações com seus clientes ou arquitetos tenham mais tempo para projetos inovadores. Mas esse conforto histórico ignora a novidade radical da IA: pela primeira vez, estamos diante de uma tecnologia que não é apenas uma ferramenta, mas um agente autônomo, capaz de tomar decisões e moldar a realidade diretamente. A pergunta, agora, não é apenas o que podemos fazer com a IA — mas o que a IA pode fazer conosco.
A IA certamente economizará tempo. O aprendizado de máquina já interpreta exames com mais rapidez e menor custo do que os médicos. No entanto, a ideia de que isso dará aos profissionais mais tempo para atividades criativas ou centradas no ser humano é menos convincente. Hoje, os médicos não carecem de tecnologia; o que lhes falta é tempo — porque os sistemas de saúde priorizam a eficiência e o corte de custos em detrimento do “tempo com os pacientes”. A ascensão da tecnologia na saúde coincidiu com uma redução, e não um aumento, no tempo que médicos passam com seus pacientes, à medida que hospitais e seguradoras pressionam por maior produtividade e menores despesas. A IA pode acelerar diagnósticos, mas há poucos motivos para acreditar que ela aliviará a rigidez de um sistema desenhado para maximizar a produção, e não a conexão humana.
Também não há muitos motivos para esperar que a IA liberte os trabalhadores de escritório para tarefas mais criativas. A tecnologia tende a reforçar os valores do sistema no qual é introduzida. Se esses valores são a redução de custos e o aumento da produtividade, a IA será empregada para automatizar tarefas e consolidar funções — não para criar respiros. Os fluxos de trabalho serão redesenhados para velocidade e eficiência, e não para a criatividade ou a reflexão. A menos que haja uma mudança deliberada de prioridades — uma valorização do aporte humano acima do simples volume de produção —, é mais provável que a IA aperte ainda mais os parafusos do sistema, em vez de afrouxá-los. E essa mudança não parece estar no horizonte próximo.