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Análise de denúncias ao Disque 100 revela que racismo teve crescimento alarmante nas redes sociais

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Análise de denúncias ao Disque 100 revela que racismo teve crescimento alarmante nas redes sociais

Tornou-se cada vez mais comum rolar o feed de uma rede social e se deparar com conteúdos racistas. Comentários, memes, posts — mais escancarados ou codificados — mostram como o discurso de ódio vem ocupando os ambientes digitais de sociabilidade.

Essa percepção não é apenas impressão: ela foi confirmada pelo novo relatório do Aláfia Lab, “Brasil, mostra sua cara! Retrato das vítimas de racismo online e o anonimato de seus agressores – Uma análise das denúncias de racismo registradas no Disque 100 entre 2011 e 2025”.

O estudo analisou denúncias feitas ao canal Disque 100, do Ministério dos Direitos Humanos, a partir de dados obtidos via Lei de Acesso à Informação. O resultado é alarmante: as queixas cresceram fortemente a partir de 2020 e atingiram um recorde histórico em 2024.

Gráfico fornecido pela autora

Isso preocupa porque, embora o Disque 100 seja um dos canais mais importantes do país, ele representa apenas uma das possibilidades de denúncia. Muitas pessoas recorrem a delegacias, ao Ministério Público, à sociedade civil — como a SaferNet —, às próprias plataformas digitais ou simplesmente não denunciam. Ou seja: mesmo diante do aumento expressivo de registros, os números refletem apenas parte da realidade, marcada por forte subnotificação.

Mulheres negras no centro da violência

Entre as vítimas, o padrão é claro: mulheres são maioria, 61,56%; homens representam 37,72%.

O recorte racial é ainda mais contundente: 91% das vítimas são negras. Dentro desse grupo, 66,5% se identificam como pretas e 24,5% como pardas. O dado revela um padrão de colorismo: quanto mais escura a pele, maiores as chances de sofrer ataques racistas.

A faixa etária mais atingida vai dos 18 aos 40 anos, período em que as pessoas costumam estar na universidade ou no mercado de trabalho. Em outras palavras, o racismo digital atinge em cheio a população em idade produtiva.

Esse achado dialoga com o sociólogo Luís Valério Trindade, que identificou que 81% das vítimas de discursos racistas no Facebook eram mulheres negras em processo de ascensão social. Segundo ele, os ataques ocorrem, muitas vezes, quando essas mulheres compartilham conquistas pessoais.

Quem são os agressores?

Embora os homens sejam maioria entre os suspeitos (55%), as mulheres também têm participação significativa (44%). Esse dado foge ao padrão de gênero de outras práticas criminais, em que a predominância masculina é bem maior.

Gráfico fornecido pela autora

No recorte racial, quando informado, os suspeitos são 70% brancos. Mas há uma limitação importante: em 60% das denúncias a cor do agressor não foi informada, fruto do uso de perfis falsos, contas temporárias ou anônimas, que dificultam a responsabilização.

A idade também acompanha a das vítimas: os ataques vêm sobretudo de adultos jovens — 24,7% dos suspeitos têm entre 25 e 30 anos, e 24% entre 31 e 40 anos. Isso sugere que vítimas e agressores compartilham os mesmos espaços digitais e, muitas vezes, as mesmas redes de socialização.

O padrão se repete em quase todas as faixas etárias, mas chama atenção a presença de crianças e adolescentes como vítimas de adultos, revelando que o racismo se soma a outros crimes a que menores de idade estão expostos em redes sociais, jogos e fóruns.

O desafio de analisar bancos de dados públicos

Além de traçar perfis de vítimas e agressores, o relatório investigou padrões de vulnerabilidade descritos nos formulários do Disque 100 e as diferentes espécies de violações registradas.

Essa etapa esbarrou em uma limitação importante: o próprio banco de dados. Ao longo dos 14 anos analisados, os formulários passaram por mudanças motivadas por alterações legais, administrativas e ideológicas. Um exemplo foi a exclusão da categoria “discriminação religiosa” durante o governo Jair Bolsonaro, medida que impactou diretamente adeptos de religiões afro-brasileiras — justamente o grupo que mais sofre violações à liberdade religiosa no Brasil.

Por isso, a pesquisa optou por não comparar longitudinalmente essas categorias qualitativas. Em vez disso, concentrou-se na descrição dos dados entre 2020 e 2022, período em que houve maior detalhamento nos registros.

Racismo e outras vulnerabilidades

Nesse recorte, foi possível observar que a violência racial aparece frequentemente associada a outras vulnerabilidades, como violência contra a mulher, contra crianças e adolescentes, contra pessoas socialmente vulneráveis, violações de direitos humanos e violência doméstica.

Quando isolamos o gênero, a maioria dessas violências incide sobre mulheres. Apenas as categorias de violação de direitos humanos e violência contra pessoa socialmente vulnerável apresentam predominância masculina.

Outro dado importante é que os casos de racismo contra mulheres frequentemente vêm acompanhados de difamação, ameaça, coação, tortura psíquica e assédio moral.

Dispersão mostra a frequência de violações, de acordo com os gêneros masculino e feminino.

O que esses dados revelam

A pesquisa “Brasil, mostra sua cara” soma-se às investigações sobre as manifestações contemporâneas do racismo. Ao capturar estratégias digitais de violência, ela busca orientar o debate público, políticas públicas e o Judiciário para enfrentar uma mazela social que ainda impacta profundamente a sociedade brasileira.

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