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Distraídos e ansiosos: porque a luta para manter o foco tornou-se ato de resistência nas escolas e na sociedade

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Distraídos e ansiosos: porque a luta para manter o foco tornou-se ato de resistência nas escolas e na sociedade

Desde o começo de março, o The Conversation Brasil publica regularmente artigos em parceria com a revista FCW Cultura Científica, da Fundação Conrado Wessel, instituição de fomento à divulgação científica brasileira e uma de nossas apoiadoras. A primeira série de publicações trata da ansiedade, um dos temas de saúde pública mais preocupantes da atualidade, e que por isso mesmo tem sido objeto de numerosos estudos. Neste texto, Antônio Álvaro Soares Zuin, professor titular do Departamento de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), explora a necessidade crescente dos jovens de se manterem conectados e os desafios enfrentados pela escola na luta contra a desatenção nutrida por essa hiperconectividade, incluindo os prejuízos causados ao processo pedagógico.


A ansiedade sempre foi essencial à sobrevivência da humanidade. Motiva reações físicas e psicológicas que nos permitem lidar com ameaças, enfrentando-as ou fugindo delas. O problema surge quando ela se configura como um transtorno. É exatamente aí que precisamos relacionar a sua manifestação exacerbada com o período histórico atual. O modo como a ansiedade se intensifica em nossa sociedade está diretamente vinculada ao recrudescimento das forças produtivas, especialmente daquelas vinculadas à tecnologia.

As novas tecnologias digitais, especialmente os poderosos computadores que nos acompanham diariamente em nossos bolsos, produzem um estado de conexão e alerta permanente, 24 horas por dia, respondendo a demandas a qualquer hora e lugar. Essa conexão ubíqua está ligada ao agravamento da ansiedade e ao prejuízo da saúde mental.


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No mundo digital, além de não se desconectar, é preciso postar sempre. No dizer de Christoph Türcke, quem não se conecta existe fisicamente, mas é como se não existisse. Isso se aplica também a lugares ou situações sociais em geral. Se determinadas situações sociais não estiverem reportadas nas redes sociais, por exemplo, é como se deixassem de existir. Estamos diante de uma nova ontologia, no sentido da definição do ser e da nossa identidade.

Quando entraram em cena os smartphones, com conexão à internet de qualquer hora e lugar, ocorreu uma ruptura inédita entre as dimensões pública e privada na história da humanidade. Até pouco tempo, seria inadmissível para um professor entrar em contato com alunos e alunas no fim de semana, que, a princípio, seria um período para descanso. Contudo, atualmente, está cada vez mais difícil deixar de entrar em contato todos os dias em função das demandas feitas.

Vive-se uma compulsão para estar cada vez mais conectado. A sociedade parece exigir isso. Posso exemplificar com o relato de uma aluna de Pedagogia, que também trabalha como confeiteira. Ela recebeu, por WhatsApp, uma encomenda de bolo após a meia-noite e optou por não responder no momento, temendo abrir precedentes para contatos fora do horário. Quando deu retorno na manhã seguinte, havia perdido a venda. O episódio ilustra a lógica do “24/7”, descrita em livro com esse título por Jonathan Crary, professor da Columbia University, nos Estados Unidos, em que a disponibilidade constante é exigida pela cultura digital, gerando tensão e afetando as relações profissionais.

A era da desatenção

Seja no ensino fundamental, no ensino médio ou na universidade, adolescentes e jovens enfrentam uma dificuldade crescente de focar a atenção nos conteúdos trabalhados em sala de aula. A proibição do celular nas escolas públicas e privadas do ensino médio é uma reação a esse desafio em expansão.

No entanto, o que estamos vendo é que a proibição de smartphones em sala de aula gera mais ansiedade e aflição. Os adolescentes precisam se conectar o tempo todo e, quando não se conectam, há uma produção intensificada de ansiedade e aflição, pois é como se estivessem fora do tempo e do espaço. E, portanto, de sua própria identidade.

Desse modo, a necessidade de conexão vai além da disposição pessoal. Ela está profundamente ligada à forma como estruturamos a vida contemporânea, especialmente nas relações de trabalho. Por isso é fundamental contextualizar o aumento da ansiedade e o uso compulsivo de tecnologias com o momento histórico em que vivemos.

Como interferir nessa realidade? A tendência global continua sendo limitar o acesso dos jovens a dispositivos móveis para promover um ambiente educacional mais favorável. A França proíbe desde 2018 o uso de smartphones e tablets em escolas para alunos de seis a 15 anos. No ano passado, Espanha e Holanda, entre outros países, proibiram celulares em sala de aula. Na Dinamarca, uma comissão sugeriu que crianças com menos de 13 anos não possuam smartphones ou tablets.

A dificuldade de manter o foco também motiva reações no ensino superior, mas não se sabe quais medidas podem ser realmente bem-sucedidas. Por um lado, a aplicação de testes ao final de cada aula, como vem sendo tentado em algumas instituições, provavelmente não será uma solução, pois o aluno responderá as questões mais por receio de ser punido do que se sentir realmente motivado a aprender.

Por outro lado, se todos os estudantes usarem seus celulares durante as aulas para “surfar” na Internet, o professor poderá até perguntar o que explicou há cinco ou dez minutos e um aluno conseguirá responder, mas se for algo dito há 20 ou 30 minutos, muitos não vão lembrar com profundidade o conteúdo estudado.

Em vez de proibir, talvez fosse mais adequado investir na construção de [acordos para o uso consciente desses aparelhos], o que eu denomino como contrato pedagógico. A partir de certa idade — quem sabe por volta dos 15 anos — pode ser possível dialogar com os adolescentes, apostando em estratégias para uma aplicação coletiva e contextualizada dos smartphones, em vez de um uso dispersivo.

Uma possibilidade seria prever o uso do celular em situações específicas, como a pesquisa de conteúdos relacionados ao que está sendo trabalhado. Mais do que controlar o uso, trata-se de integrar os dispositivos ao processo pedagógico de forma consciente e compartilhada. Com crianças, definitivamente, essa conversa não seria possível na sala de aula, pois elas não podem ter acesso descontrolado às redes sociais. Se houver esse tipo de acesso, prevalecerá o que eu denomino como concentração dispersa, de tal modo que a criança dispersará seu foco de atenção em vários objetos por meio de seus celulares, fomentando o chamado comportamento multitarefa. E justamente esse tipo de comportamento precisa ser evitado nas atividades educacionais. Na verdade, para que haja aprendizagem profunda, é preciso também haver concentração profunda naquilo que está sendo estudado.

Cyberbullying e discursos de ódio

A conexão ubíqua apresenta mais complicadores. Sabemos que as plataformas de redes sociais são orientadas, principalmente, pela monetização das informações e das imagens disseminadas. Sendo assim, mensagens de cunho preconceituoso e discursos de ódio, por conterem fortes apelos audiovisuais, tendem a atrair mais visualizações, o que favorece a sua veiculação mais rápida e oferece maior potencial de rentabilidade. É uma questão de mercado, infelizmente inserida nesse contexto de maneira muito enfática, atingindo transversalmente indivíduos conectados de quaisquer idades.

Pude observar a intensidade desse impacto em pesquisas que realizei sobre manifestações de cyberbullying de alunos em relação a professores e professoras – e que deram origem ao livro “Fúria narcísica entre alunos e professores: as práticas de cyberbullying e os tabus presentes na profissão de ensinar”. No estudo, as imagens mais agressivas foram justamente as mais acessadas e comentadas, principalmente pelos jovens, e isso em escala mundial.

Para se ter uma ideia, um vídeo brasileiro exibindo uma situação de humilhação de um professor viralizou e teve mais de 2 milhões de acessos. Depois de algum tempo, o vídeo foi republicado com termos em inglês, como “teacher cell phone”, e repercutiu em vários países, com mais de 600 mil visualizações e centenas de comentários em inglês sobre a situação de humilhação.

Da mesma forma, a pandemia permitiu-nos ver que o modo como a tecnologia é usada faz diferença no aumento ou redução da ansiedade. Entre 2020 e 2021, participei com outros pesquisadores da iniciativa Research Roadmap for the COVID-19 Recovery, com apoio da ONU e FAPESP. A ideia era fazer um mapeamento de pesquisas com foco no contexto de recuperação dos problemas causados pela Covid-19 e, principalmente, pelo confinamento social.

Nosso estudo comparou estudantes de Pedagogia e Computação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR) com alunos dos mesmos cursos na Universidade Goethe, em Frankfurt, na Alemanha. Conseguimos comprovar, estatisticamente, que a interação ativa entre docentes e estudantes — mesmo em ambientes virtuais — contribuiu para reduzir a ansiedade e a depressão, melhorou o aprendizado e a consciência crítica sobre o uso das tecnologias. Em contrapartida, onde houve apenas aulas gravadas, como em parte do ensino na Alemanha, os índices de sofrimento e queda no rendimento foram maiores.

A hiperconectividade e o papel da escola

Em um futuro próximo, o aumento da ansiedade por conta do uso da tecnologia atingirá outro patamar com a chegada de novas tecnologias conectivas. Empresas de tecnologia estão desenvolvendo dispositivos na forma de óculos, fones ou implantes que poderão substituir os smartphones.

Também é preciso levar em consideração que as novas modalidades conectivas incidirão em uma realidade na qual as inteligências artificiais (IA) já representam um grande problema nas escolas. Para além do plágio de informações e textos, a utilização de IA sem orientação crítica fragiliza o contrato pedagógico, compromete a formação ética e a autonomia dos estudantes.

Diante desse contexto, é essencial que a escola busque um diálogo contínuo com os jovens, que aborde as implicações éticas e morais do uso dessas tecnologias com a finalidade de estimular a formação de uma consciência crítica. É preciso refletir sobre os sentidos e os impactos das tecnologias conectivas no modo como nos relacionamos, aprendemos e nos posicionamos no mundo.

Além disso, a escola é uma instituição fundamental no debate sobre as consequências da disseminação de fake news — entre elas, o fomento de medos, preconceitos e, consequentemente, da ansiedade. É importante que os jovens compreendam que não precisam aderir a estímulos audiovisuais agressivos para se afirmarem como pessoas tanto no mundo virtual quanto no presencial.

Nesse aspecto, o Brasil ocupa uma posição de destaque no cenário internacional, especialmente por ter reagido à decisão de empresas como X e Meta de abandonarem as políticas de combate à disseminação de fake news. Essa reação se deu por meio de uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que afirmou que a internet não pode ser um espaço sem lei, nem um ambiente que comprometa a consolidação dos direitos humanos. Na Comunidade Europeia, a reação não tem sido tão rápida e imediata.

Em um mundo em que todos estão conectados o tempo todo, manter o foco virou ato de resistência. Professores e alunos devem utilizar as tecnologias digitais para a aprimorar os aspectos cognitivos, afetivos e ético-morais de suas relações. Mas, para que isso ocorra, eles devem estar juntos e focar suas atenções no mesmo objeto estudado. Devem compartilhar suas atenções no mesmo objeto e não partilhá-la em vários objetos ao mesmo tempo durante as atividades nas salas de aula. Em meio a algoritmos, dispositivos e inteligências artificiais, a escola precisa reinventar o vínculo pedagógico entre docentes e discentes para não se distanciar da sua própria razão de existir.


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