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Guerra de tarifas: neutralidade geopolítica associada à diplomacia comercial ativa abrem oportunidades para o Brasil

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Guerra de tarifas: neutralidade geopolítica associada à diplomacia comercial ativa abrem oportunidades para o Brasil

As medidas tarifárias adotadas pelo presidente Donald Trump na quarta-feira e que entraram em vigor em 03 de abril marcam uma guinada histórica no comércio internacional. Ao elevar de maneira abrupta os impostos de importação para níveis médios acima de 20%, os Estados Unidos revivem um modelo que remete à Smoot-Hawley Tariff Act, promulgada em 1930, cujos efeitos deletérios sobre a economia global agravaram de forma decisiva a Grande Depressão.

Com tarifas que alcançam até 54% no caso da China e 20% contra a União Europeia, Trump inaugura uma nova era de confrontos econômicos que coloca em xeque décadas de avanços no multilateralismo comercial.

A reação imediata dos mercados está sendo de pânico, em linha com os relatórios preliminares do FMI e da OECD, que alertaram – desde as primeiras imposições nos primeiros dias da nova Administração – sobre o aumento exponencial do risco de recessão nos países centrais. De fato, os efeitos se fizeram sentir não apenas no comércio, mas também nos fluxos financeiros, na valorização do ouro e nas flutuações das moedas de países exportadores.

Em meio à instabilidade global, o Brasil se encontra em uma posição particularmente vantajosa. Ao ser enquadrado no patamar mínimo de 10% de tarifas – nível consideravelmente inferior ao imposto sobre os principais parceiros comerciais dos EUA – o país abre uma nova frente de oportunidades econômicas e diplomáticas.

A imposição de tarifas pesadas sobre grandes economias exportadoras, como a China, o Japão e a Alemanha/União Européia, obriga os Estados Unidos a reconfigurar urgentemente suas cadeias de suprimentos. O que antes era fornecido por indústrias asiáticas pode agora ser transferido para países com vínculos comerciais mais brandos.

Um estudo publicado pelo Peterson Institute for International Economics sugere que a realocação das cadeias globais de valor já está em curso, impulsionada tanto pelas tarifas quanto pela busca por resiliência logística. Nesse contexto, o Brasil emerge como uma fonte confiável de matérias-primas, produtos agrícolas e manufaturas intermediárias.

A base exportadora brasileira é suficientemente diversificada para absorver a demanda deslocada por essa reestruturação. O relatório Trade and Development Report da UNCTAD (2023) aponta o Brasil como um dos poucos países em desenvolvimento com capacidade de expandir suas exportações industriais sem comprometer sua balança externa.

A agroindústria nacional, fortemente integrada aos mercados globais, já abastece os EUA com soja, carne, café e frutas. Além disso, segmentos como celulose, minério de ferro, têxteis e autopeças têm potencial imediato para substituir fornecedores asiáticos sujeitos a tarifas mais pesadas.

A atratividade brasileira se amplifica quando se considera a sua estabilidade institucional relativa, sua posição geográfica e os acordos regionais em andamento. O acordo Mercosul-União Europeia, atualmente em fase de ratificação, pode ampliar o acesso a mercados de alto valor agregado, funcionando como um trampolim para produtos com origem brasileira. Paralelamente, os esforços da Confederação Nacional da Indústria (CNI) para facilitar acordos bilaterais com países da Ásia, África e América do Norte reforçam a inserção comercial do país.

Além do comércio, o Brasil pode se beneficiar de um ciclo renovado de investimentos estrangeiros diretos. Com o aumento dos custos operacionais na China e na Europa, empresas multinacionais presumivelmente terão maior interesse em relocalizar suas plantas para países fora do epicentro do conflito tarifário.

Dados da UNCTAD Investment Trends Monitor, do ano passado, mostram que o Brasil voltou a figurar entre os dez destinos preferenciais de investimento industrial, sobretudo nos setores de energia, alimentos e tecnologia agrícola. A entrada de novos capitais contribuiria na geração de empregos, inovação e incluso consolidação do país como uma plataforma exportadora para múltiplas regiões.

As análises mais recentes do Banco Mundial sublinham que países intermediários, com estrutura produtiva complexa e flexível, estão em posição de aproveitar os ganhos líquidos do redesenho comercial. O Brasil, ao manter uma postura de neutralidade geopolítica, evita pressões bilaterais e se coloca como um elo seguro entre blocos em conflito. Essa neutralidade – associada a uma diplomacia comercial ativa – é um ativo político valioso que pode ser monetizado por meio de acordos setoriais e investimentos direcionados.

Embora haja vozes que alertem para riscos como inflação importada ou redução da demanda global, a verdade é que o Brasil não se encontra no centro do conflito, mas em sua periferia estratégica. Essa posição permite colher benefícios de curto e médio prazo com menor exposição aos choques diretos. Estudo recente da Fundação Getulio Vargas (FGV) demonstra que a elasticidade das exportações brasileiras a mudanças nos fluxos comerciais globais é suficientemente alta para garantir ganhos relevantes, mesmo em cenários adversos de crescimento internacional. Posição similar adota o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial.

Mais do que uma resposta defensiva a uma crise, a atual conjuntura internacional exige do Brasil uma atitude proativa. Os próximos anos serão decisivos para consolidar uma presença robusta em mercados antes ocupados por competidores agora penalizados. O país dispõe de todas as condições estruturais para se posicionar como um parceiro comercial estratégico e confiável, especialmente para países que procuram alternativas à polarização EUA-China.

A guerra tarifária de Trump redefine as regras do comércio global. Mas é justamente na redefinição das regras que surgem as maiores oportunidades. O Brasil, com sua base produtiva ampla, sua diplomacia tradicionalmente moderada e seu apetite renovado por protagonismo internacional, pode converter um cenário de conflito em uma plataforma de crescimento. A nova ordem comercial não será construída em Washington ou Pequim, mas nos corredores diplomáticos e logísticos daqueles que souberem navegar entre as tensões e transformar desvantagens alheias em projetos nacionais.

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