Em 2023 e 2024, o mundo testemunhou um dos mais severos eventos globais de branqueamento em massa já registrados. Eventos como este possuem registro desde o início dos anos 1980, mas a magnitude vem aumentando ao longo dos anos. Em 2024, pelo menos 83 países relataram impactos, e cerca de 84% dos corais do planeta apresentaram sinais de branqueamento. A atenção se voltou sobretudo para a Grande Barreira de Corais, na Austrália, e para os recifes caribenhos de águas cristalinas. Porém, aqui no Atlântico Sul, a situação não é muito diferente. Por trás desse fenômeno está o mesmo vilão: o aquecimento dos oceanos causado pela emissão de gases de efeito estufa na atmosfera.
O branqueamento ocorre quando os corais são submetidos a temperaturas acima do limite suportado para cada espécie. Essa palidez pode durar longos períodos e, dependendo da extensão, é suficiente para comprometer a saúde e integridade dos recifes, resultando em perda de biodiversidade, impactando a pesca, turismo e a proteção contra erosão costeira. Porém, até recentemente, praticamente não se conhecia o contexto histórico térmico dos recifes do Atlântico Sul.
Episódios cada vez mais frequentes
Procurando preencher esta lacuna e enquadrar o Atlântico Sul na esfera de locais afetados historicamente pelo aquecimento global, reunimos uma equipe de especialistas do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo e da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) dos Estados Unidos.
A equipe resgatou dados de satélite que registraram quatro décadas de temperatura da superfície do mar. Com isso, reconstruímos o histórico de estresse térmico nos recifes da região. Os resultados mostram que esses episódios vêm ocorrendo aqui desde os anos 1980 e estão se tornando cada vez mais frequentes, intensos e duradouros, principalmente em anos de El Niño, quando o aquecimento das águas é intensificado. Um dos achados mais surpreendentes foi identificar um padrão de propagação dos eventos.
Ao analisarmos a data de início de cada episódio, vimos que eles tendem a começar na Sul, próximo à costa de Santa Catarina, e se espalham gradualmente em direção ao Norte. Esse deslocamento leva cerca de três meses para percorrer todo litoral brasileiro, o que ilustra como os recifes respondem de forma conectada às mudanças do clima.
Mas por que os corais são tão sensíveis à mudança na temperatura? Os principais corais formadores de recife no Brasil vivem associados com microrganismos capazes de realizar fotossíntese. Funciona como um aluguel, o coral oferece abrigo e, em troca, o “inquilino” fornece energia produzida.
Porém, quando a temperatura da água ultrapassa um limite, essa relação colapsa. O “despejo” do inquilino revela o esqueleto do coral de cálcio, dando um aspecto esbranquiçado à colônia. Neste estado, o coral não está morto, mas fica enfraquecido e mais suscetível a doenças. Se a situação de estresse se prolonga, o coral pode morrer parcial ou totalmente.
A perda de cobertura de corais pode desencadear mudanças expressivas no ambiente. Espécies de crescimento rápido ocupam o espaço antes dominado por recifes saudáveis, reduzindo a complexidade do ambiente. Assim, perde-se funções de abrigo para espécies de peixes e invertebrados, proteção física contra ondas e manutenção de atividades pesqueiras e turismo.
Um escudo natural contra o avanço das ondas
No Brasil, mais da metade da população vive em regiões litorâneas e dependem direta ou indiretamente da saúde dos ambientes recifais para seu bem-estar. Estes ambientes sustentam atividades pesqueiras artesanais, contribuem para beleza cênica e são protagonistas de muitas atividades turísticas e funcionam como escudos naturais contra o avanço das ondas, protegendo centros urbanos de inundações e erosão.
Conhecer o histórico térmico dos recifes é uma ferramenta importante para identificar possíveis refúgios climáticos e áreas prioritárias de conservação. Ao comparar estes dados com observações em campo, podemos descobrir regiões que, mesmo submetidas a episódios intensos de calor, apresentam menor branqueamento ou mortalidade. Estes recifes atuam como verdadeiros laboratórios naturais e podem orientar medidas de proteção mais eficazes e nos mostrar o papel de fatores locais nas consequências do aquecimento também.
Um trabalho inédito de reconstrução
Este processo de reconstrução histórica dos recifes do Atlântico Sul nunca havia sido feito antes. Ela mostra que, apesar de muitas vezes subestimados em avaliações globais, nossos recifes guardam informações essenciais para compreender os impactos das mudanças climáticas. Mais do que isso: revela que para montar estratégias que garantem o futuro dos recifes, é preciso olhar para o seu passado e compreender a sua história.
Se quisermos preservar estes ambientes, precisamos agir agora, fortalecendo políticas de conservação, enfrentando a raiz do problema com a redução de gases de efeito estufa e evitando soluções paliativas de curto prazo. Os recifes do Atlântico Sul já carregam em sua história sinais de alerta que até pouco tempo passavam despercebidos. Cabe a nós monitorar sua saúde de perto e proteger o que ainda resiste, porque o que já foi perdido não pode ser recuperado.