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Paisagem com ervas curativas: Um ensaio da escritora ucraniana Yulia Stakhivska

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Paisagem com ervas curativas: Um ensaio da escritora ucraniana Yulia Stakhivska

Vorzel’s Uvarov House. Photo by Yulia Stakhivska, used with permission

Casa Uvarov em Vorzel. Foto de Yulia Stakhivska, utilizada com permissão.

Escrito por Yulia Stakhivska

Traduzido do ucraniano por Iryna Tiper e Filip Noubel 

Essa história faz parte de uma série de ensaios escritos por artistas ucranianos intitulado “Cultura Recuperada: vozes ucranianas curam a cultura ucraniana”. Essa série é produzida em colaboração com a Associação Folkowisko Association/Rozstaje.art, graças ao cofinanciamento dos governos da República Tcheca, Hungria, Polônia e Eslováquia através do subsídio do Fundo Internacional Visegrad. A missão do fundo é promover ideias para uma cooperação regional sustentável na Europa Central.

Inicialmente, era apenas o apartamento de alguém. Então, se transformou em um restaurante, mais tarde, uma padaria e, outro dia, abriram uma livraria. A livraria “Ye” é uma grande rede de livrarias na Ucrânia que tem causado um grande alvoroço. Eu me sinto nostálgica porque, no meu primeiro emprego eu tinha um cartão de visita que me identificava como “gerente de arte”. Isso foi na primeira livraria da mesma rede em Kiev, perto da Golden Gate.

Qual livro devo escolher nessa nova livraria? O local do sepultamento em massa das vítimas dos crimes russos em Bucha não fica longe daqui. E eu me lembro de “Paisagens Envenenadas” de Martin Pollack, uma coleção de ensaios que mostra como as paisagens podem ser enganadoras, tal qual a grama que consegue crescer novamente, contam histórias sobre Auschwitz, Katyn, Babi Yar… A guerra continua, em memoriais de guerra mencionando os nomes dos mortos. Estou procurando por imagens de ervas curativas que possam “curar” a paisagem.

Vou te contar sobre as cidades a oeste de Kiev que ficaram mundialmente famosas em 2022, como resultado da tragédia da invasão em grande escala da Rússia. Bucha, Irpin, Hostomel, Vorzel: lugares que tem tradições históricas e artísticas e não são somente “paisagens destruídas”.

Uma foto do parque 

Quando eu olho para o quadro “A Anunciação” (1909) do artista impressionista ucraniano Oleksandr Murashko, observo a varanda em madeira da antiga propriedade rural e me lembro do seu tio, Mykola Murashko, o fundador da Escola de Desenho de Kiev, que viveu e foi sepultado em Bucha. Witold Kaminsky, um hidroterapeuta de origem polonesa, morava nas proximidades. Sua casa e a antiga clínica de hidroterapia em Kiev, na rua Saksaganskoho, onde Kaminsky atendia, foram todas preservadas.

Aqui um vídeo sobre o quadro:

A família artística Murashko era amiga de outros residentes de verão, como a família Bulgakov, particularmente de Mikhail Bulgakov, o futuro escritor russo. Que visões e futuros contrastantes eles tinham! Bulgakov, pró-Rússia, partiu da região de Kiev em uma viagem que terminou em Moscou, enquanto Oleksandr Murashko foi morto em 1919 em Kiev, durante a invasão bolchevique, quando a Ucrânia, mais uma vez, defendeu sua soberania. Outra vez, um fragmento do passado, mas a memória nos traz de volta o que mais importa: pinturas maravilhosas de artistas. Como diz o lema latino: a vida é curta, a arte é longa.

Eu gosto de conferir as exposições na Galeria de Arte Kosenko, perto do Parque Buchansky. A última era um tanto neoimpressionista, com paisagens idílicas. Uma tentativa de encobrir a guerra? Uma distração dela? Não, apenas a simultaneidade de épocas diferentes: não haverá outra vida além dessa, então por que desistir da exposição? Continuamos vivendo, inclusive em tempos de ataques aéreos ou, sobretudo, em tempos como esses. Nossas paisagens precisam de ervas curativas para nos confortar.

Esse é o ponto de entrada para o que mais importa na minha cidade de Bucha: o parque. Uma combinação de paisagens formadas pelas tradições dos parques franceses e ingleses, canais, lagos com patos, flores, árvores antigas, atrações, piqueniques, concertos (como o Festival Internacional Operetta O-Fest, que acontece anualmente no início de junho). Eu já escrevi mais de um texto lá no terraço do pequeno restaurante, um local onde se dá os primeiros passos, se deita na grama, se nada ou se anda de bicicleta.

Para os moradores e visitantes, esse é um lugar de força. Os vestígios de fragmentos de conchas no aterro não devem mudar isso. Pelo contrário, as pessoas voltaram e, embora elas vivam em perigo, encontram força naquilo que as inspira. Este não é um conselho de um coach de vida sobre resiliência; é uma prática que pode se tornar uma memória — uma memória viva e brilhante, marcada com a hashtag #BuchaDream, cheia da luz de verão e risada de crianças à sombra de um velho carvalho. Há uma escultura debaixo da árvore, uma espécie de “Espírito do Parque”, cujos traços faciais lembram um escultor local bem conhecido. 

Claro, agora enxergamos tudo de forma diferente. A placa “Desminado. XOXO”. deixada pelos sapadores ucranianos na cerca, me sensibiliza e me preenche de calor humano. Pode, pelo contrário, fazer com que outros se sintam desconfortáveis. Alguns moradores de Bucha não retornaram por causa desse dilema emocional. Outros, por razões práticas. Esse é o caso dos meus amigos, poetas e tradutores Daryna Gladun and Lesyk Panasiuk, que não moram mais fisicamente no seu apartamento; ele foi ocupado e destruído pelos soldados russos. Mas eles voltaram a “morar nele” novamente através de seus textos e de uma instalação artística.

História em quadrinhos

Há muito no meu mapa artístico pessoal que fala sobre a cultura atual. Por exemplo, o conto “A Mulher Extraterrestre” de Oksana Zabuzhko, uma famosa escritora ucraniana que escreveu na Casa dos Escritores de Irpin. Ou a instituição Soviética da “Casa da Criatividade,” então um espaço para escritores e tradutores, agora um mito literário revisitado por artistas contemporâneos. Maryna Hrymych criou uma série de romances que mostram, em particular, o círculo literário de Irpin. Atualmente, próximo aos prédios abandonados dos escritores [instituições soviéticas onde os escritores podiam trabalhar e morar], existe um parque com esculturas temáticas e vielas cobertas de destroços, que inevitavelmente levará à dacha de Chokolov — um edifício do início do século 20, propriedade do empresário de Kiev, Ivan Chokolov. As autoridades soviéticas o nacionalizaram e, em 1936, o transferiram para a União dos Escritores, uma instituição que reunia todos os ilustres escritores soviéticos e fornecia apoio financeiro e outros tipos de apoio. Alguns dos autores mais velhos ainda moram lá, ocasionalmente.

Vários personagens retirados dos livros “passeiam” pelas ruas de Irpin. Um dos mais simpáticos é o espírito da floresta de Irpin, Ommm, o herói dos livros de Tasha Torba. Ele luta com toda a sua força para curar as feridas da cidade ajudando pessoas e animais. Ele pode ser encontrado na “Livraria da Floresta” no Parque Central de Irpin ou no espaço artístico “Lisova 3″.

O espaço foi fundado pela desenhista Svitlana Hryb e pelo diretor de cinema Serhiy Spizhovyi. Eles reciclam objetos para criar lustres, instalações e mosaicos maravilhosos a partir de pedaços de azulejos. Eles foram um dos primeiros em Irpin a fornecer seminários de apoio psicológico para pessoas desalojadas e moradores da região de Kiev. Uma comunidade de artistas foi formada aqui, com eventos e reuniões, como a exposição “Irpin. Histórias Gráficas”, de estudantes da Academia Nacional de Belas Artes e Arquitetura, que conheceram a cidade no verão de 2024, e logo criaram suas próprias histórias sobre o local. Quem mais sofreu em Bucha foram as pessoas; de fato há poucas ruínas, uma vez que os russos não ocuparam a cidade totalmente. Mas ocorreram combates violentos, danificando muitas casas. Em uma delas, o artista inglês Banksy desenhou uma ginasta se equilibrando sobre a cratera aberta por uma bomba. 

A insuportável leveza da dacha

Casa Uvarov em Vorzel. Foto de Yulia Stakhivska, usada com permissão.

Em Vorzel, o antigo espírito do resort foi muito bem preservado. Digo, “o antigo”, porque a maioria das dachas que aparecem nos cartões-postais sépia do século passado transformaram-se, infelizmente, em sanatórios soviéticos abandonados ou ficaram irreconhecíveis após a reconstrução. Porém uma delas teve sorte e, por duas vezes, já que sobreviveu ao ano de 2022. Essa casa é propriedade de Natalia Tereshchenko, que veio de uma família de patronos ucranianos das artes. A propriedade é chamada de Casa Uvarov, pois Natalia era esposa do conde Uvarov. Essa casa lindamente restaurada com uma torre, agora abriga um museu que inclui uma exposição sobre a família Tereshchenko, uma sala que exibe a vida antiga na dacha, uma sala de aula (existia uma escola no prédio na década de 1920), e uma modesta exposição dedicada ao escritor Valerian Pidmohylny, um pilar da literatura ucraniana do século 20 que morreu durante os expurgos de Stalin na década de 1930. Ele deixou sua marca na história ucraniana com sua prosa psicológica e urbana, principalmente o romance “A Cidade” (1928).

O museu também ostenta uma sala de concertos dedicada a Borys Lyatoshynsky, um representante do modernismo na música ucraniana. Alguns dos seus alunos inclui os compositores de vanguarda Leonid Hrabovsky and Valentin Silvestrov. Em Vorzel, existia uma Casa de Compositores com um espaço dedicado a eles e Lyatoshynsky muitas vezes trabalhava na dacha de Vorzel.

A casa do compositor Ihor Poklad permanece como um eco da tradição musical de Vorzel. Em 7 de novembro de 2024, o filme “Bucha,” baseado em fatos reais, foi lançado nos cinemas ucranianos (teve sua estreia mundial no Festival de Cinema de Varsóvia). Uma das cenas principais foi filmada nessa casa. Oficiais russos invadem a dacha e colocam um disco tocando música de um desenho animado sobre Cossacos ucranianos. Então, um deles senta-se ao piano e tenta tocar a música, mas o comandante lamenta que eles deixaram um compositor ir para a evacuação. No fim das contas, de acordo com as narrativas russas, não deveria haver compositores ucranianos, nem ucranianos em geral. O subordinado pede ansiosamente a seu superior para tocar e ele toca o compositor russo Tchaikovsky; tudo termina com um brinde à cultura russa. Ao recuarem, os russos deixam uma granada no piano. Isto não é um truque cinematográfico. Alguns moradores realmente encontraram tais “lembrancinhas” dentro de pianos em suas casas libertadas.

Agora Vorzel também tenta viver “como antes”, as pessoas vão visitar o museu, a tulipeira, o hotel à beira do lago ou o espaço de trabalho compartilhado Workit. Numa noite de verão, Vorzel soa como uma noite inspirada por pinheiros com um toque de amargor picante. 

O poder dos sonhos

Mesmo quando eu não morava em Bucha, eu sabia que próximo a Hostomel, havia um aeroporto que abrigava o maior avião cargueiro do mundo com o belo nome de “Mriya”, que significa “sonho” em ucraniano. Sobre Hostomel em si, eu só sabia que era a cidade mais antiga da região, fundada no século 15 e que existia uma antiga igreja de madeira lá. Foi também lá onde a cidade militar próxima ao aeroporto mais sofreu em 2022 em batalhas violentas.

The Mriya plane [the world’s largest plane, stationed in Ukraine, and destroyed in 2022 during Russia’s full-scale invasion] flies over the Giardini gardens, but does not cast a shadow. It is not known what will happen in Giardini that day, and fortunately no one knows this.

O avião Mriya [o maior avião do mundo, estacionado na Ucrânia e destruído em 2022 durante a invasão em grande escala da Rússia] sobrevoa os jardins Giardini, mas não projeta sombra. Não se sabe o que acontecerá em Giardini nesse dia e, felizmente, ninguém sabe.

Este é um fragmento da descrição do projeto da associação artística Open Group, que representou a Ucrânia na Bienal de Veneza em 2019. Por alguma razão, o “Mriya” nunca sobrevoou os canais de Veneza. Agora o avião realmente vive no mundo da imaginação. Diversos livros artísticos apresentando pinturas do avião foram escritos sobre ele.

A literatura pode proporcionar, ao menos, algum sentido de permanência. Pois quando você sai de casa somente com uma mochila, o que resta senão a história? Isso se refletiu na atividade da restauradora de Kiev, Margarita Sichkar, que também é fã de livros. Ela vive em Hostomel, construiu duas casa lá e decidiu apoiar a cidade. Então ela abriu um espaço literário chamado BookHub “Vich/na/Vich” no parque “Schaslyvy (feliz), um lugar que reune e inspira as pessoas.

Nessa livraria iluminada, as apresentações e encontros ocorrem enquanto se toma um café, entre altos pinheiros. O idealizador desse pólo gosta de repetir: “Faça o que puder, com o que tiver, onde estiver.” Não é difícil de concordar. E no gramado do parque Schaslyvy, em meio à grama, as ervas curativas crescem.

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