Tag: corrupção

  • Operação Cofre Negro: como R$ 4,2 bilhões desviados financiaram campanhas eleitorais por 12 anos

    Como tudo começou

    Era uma manhã de março de 2012 quando o contador Édson Marques recebeu a instrução que mudaria sua vida — e que anos depois colocaria dezenas de políticos no banco dos réus. Dentro de um envelope amarelo sem remetente, uma planilha com 847 linhas e um bilhete manuscrito: “Faça o dinheiro sumir.”

    Édson era funcionário de uma construtora de médio porte sediada em Goiás. O que ele não sabia naquele momento é que estava prestes a se tornar peça-chave de um esquema que movimentaria, ao longo de doze anos, mais de R$ 4,2 bilhões em recursos desviados do erário público de seis estados brasileiros.

    Esta é a história da Operação Cofre Negro — a maior investigação de corrupção sistêmica já conduzida pelo Ministério Público Federal fora do eixo Rio-São Paulo. E o Jornal Informa Digital teve acesso exclusivo a mais de 3.000 páginas de documentos, gravações e depoimentos que reconstroem, passo a passo, como o esquema funcionou.

    A engrenagem do desvio

    O mecanismo era sofisticado o suficiente para enganar auditorias por mais de uma década, mas simples o suficiente para ser replicado em estados completamente diferentes. Contratos de obras públicas eram superfaturados entre 35% e 180%. A diferença entre o valor real e o cobrado era dividida em três partes desiguais.

    Trinta por cento ficavam com os donos das empreiteiras — o “lucro do risco”, como chamavam internamente. Quarenta por cento seguiam para os agentes públicos que autorizavam os contratos ou olhavam para o outro lado nas auditorias. Os trinta por cento restantes eram destinados a um fundo secreto de financiamento de campanhas eleitorais, gerido por um núcleo de operadores políticos que os investigadores chamaram de “O Conselho”.

    • R$ 4,2 bilhões desviados entre 2012 e 2024
    • 6 estados afetados: GO, MT, PA, MA, RN e CE
    • 847 contratos superfaturados identificados
    • 38 investigados, 14 já indiciados
    • 12 anos de esquema ativo sem detecção
    • R$ 890 milhões recuperados até agora

    Os protagonistas do esquema

    “O Conselho” era composto, segundo os investigadores, por sete pessoas. Três eram empresários com histórico de contratos com o poder público. Dois eram assessores parlamentares com trânsito entre diferentes partidos. Um era funcionário concursado de um tribunal de contas estadual. E um era identificado apenas pelo codinome “Arquiteto” — até hoje não formalmente identificado, mas cujo perfil traçado pelos investigadores aponta para alguém com formação jurídica e conexões no sistema bancário internacional.

    O dinheiro viajava por um labirinto de contas em nome de empresas de fachada registradas em paraísos fiscais — Ilhas Cayman, Panamá e, surpreendentemente, uma pequena ilha do Atlântico Sul raramente associada a esse tipo de operação. De lá, retornava ao Brasil disfarçado de “investimento estrangeiro” em startups ou fundos imobiliários.

    O delator que abriu as portas

    A investigação só tornou-se possível após a delação premiada de Cláudio Ferreira, ex-diretor financeiro de uma das empreiteiras envolvidas. Ferreira procurou o Ministério Público em outubro de 2023 depois de perceber que seria o próximo a ser “queimado” pelo esquema — eliminado da equação antes de tornar-se um problema para os demais participantes.

    Em depoimento de 40 horas distribuídas em 8 sessões, Ferreira entregou planilhas, gravações de reuniões, extratos bancários de contas no exterior e o nome de 23 pessoas físicas e 41 pessoas jurídicas. “Eu sabia que estava participando de algo errado desde o começo”, afirmou em um dos depoimentos. “Mas quando percebi o tamanho real do buraco, já estava fundo demais para sair.”

    O impacto nas comunidades

    Por trás dos números frios de bilhões desviados, há histórias humanas devastadoras. O hospital municipal de São Benedito do Rio Preto, no Maranhão, foi um dos casos mais emblemáticos levantados durante a investigação. Uma reforma prometida em 2016, contratada por R$ 12 milhões — valor já superfaturado, segundo os peritos —, foi executada por apenas R$ 3,2 milhões e entregue inacabada em 2019.

    Resultado: a ala de maternidade permanece fechada até hoje. Mulheres em trabalho de parto precisam percorrer até 80 quilômetros de estrada esburacada para chegar à cidade mais próxima com estrutura hospitalar. Desde 2019, ao menos quatro bebês nasceram em automóveis nessa trajetória. Um não sobreviveu.

    O que vem por aí

    A Operação Cofre Negro ainda está em andamento. Novos mandados de busca e apreensão devem ser cumpridos nas próximas semanas. O Ministério Público Federal estima que a investigação completa — incluindo os desdobramentos em outros estados que começaram a surgir durante a apuração — pode se estender por mais dois anos.

    O Jornal Informa Digital continuará acompanhando e publicando os desdobramentos desta investigação. Esta é a primeira de uma série de reportagens especiais sobre a Operação Cofre Negro.