Poderia ser um termo saído de um manual de biologia, mas “taxonomia verde” vai muito além. Em um ano marcado pela COP 30 no Brasil, e por uma tendência no avanço das regulamentações climáticas, essa expressão está prestes a entrar no vocabulário de investidores, formuladores de políticas e grandes corporações.
Um instrumento essencial para definir o que pode ser considerado sustentável, influenciando decisões econômicas e regulatórias. Mas sua relevância não está restrita à nomenclatura: trata-se de um novo paradigma para investimentos e para o futuro da economia global.
Na prática, a taxonomia verde funciona como um selo de qualidade para investimentos de impacto. O objetivo é oferecer uma leitura mercadológica capaz de segmentar e interpretar o ecossistema verde, ampliando a compreensão do potencial da economia sustentável, destacando tendências emergentes e dando visibilidade aos volumes de capital já comprometidos com o financiamento de seus principais setores, a exemplo da iniciativa da Plataforma Internacional de Finanças Sustentáveis.
Empresas e governos poderão se adequar a três pilares fundamentais: melhorias ambientais, redução de emissões e eficiência no uso de recursos naturais. Uma ferramenta que busca evitar que, sem critérios bem definidos, projetos altamente poluentes acabem sendo classificados como sustentáveis apenas por incluírem uma solução tecnológica pontual.
Mas há um dilema central: enquanto países desenvolvidos já estruturam suas taxonomias há anos, o Brasil enfrenta o desafio de equilibrar a proteção ambiental com a necessidade de desenvolvimento econômico. Sem um sistema claro de definição do que é, de fato, “verde”, corremos o risco de ver recursos destinados à sustentabilidade sendo desviados para iniciativas que não garantem impactos positivos reais.
Estudos desenvolvidos pela sociedade civil e pelo Poder Público estão em andamento na busca por um caminho seguro. O Governo Federal avança na criação da Taxonomia Sustentável Brasileira, prevista para 2026, com o intuito de estabelecer diretrizes oficiais que orientem políticas públicas, regulação financeira e incentivos fiscais. Essa iniciativa tem como meta consolidar princípios claros para direcionar investimentos a setores alinhados à transição climática e ao desenvolvimento sustentável.
Paralelamente, a sociedade se mobiliza para contribuir com esse processo, buscando disponibilizar uma taxonomia acessível e em sintonia com a proposta do governo. A Taxonomia Onda Verde, publicação organizada pela think-and-do tank Climate Ventures, é inspirada em iniciativas da União Europeia e da Colômbia. Seu objetivo é estabelecer padrões para classificar atividades econômicas sustentáveis, garantindo que estejam alinhadas à meta de emissão líquida zero até 2050. Esse modelo cria um ambiente de previsibilidade e de segurança para investidores e regulações futuras, evitando o risco de greenwashing e promovendo transparência.
A crescente conscientização ambiental global tem impulsionado a implementação de regulamentações mais rigorosas no mercado verde, especialmente na Europa, com o objetivo de combater o desmatamento e reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE), impactando diretamente as exportações de países como o Brasil. Em 2023, a União Europeia (UE) aprovou a Lei de Regulamentação do Desmatamento (EUDR), que proíbe a importação de produtos associados ao desmatamento após 31 de dezembro de 2020. Produtos como soja, carne bovina, cacau, café e madeira estão entre os mais afetados.
Além disso, o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM), implementado pela UE, impõe taxas sobre importações de produtos com alta emissão de carbono, como aço, cimento e alumínio. Para o Brasil, essas regulamentações representam desafios significativos, especialmente para pequenos e médios produtores. No entanto, também oferecem oportunidades para o país fortalecer sua posição no mercado global, alinhando-se às demandas crescentes por sustentabilidade e responsabilidade ambiental (mesmo com os EUA caminhando na contramão dessa agenda).
O mercado financeiro já responde a essa tendência. Investidores estão cada vez mais atentos à segurança e à confiabilidade dos padrões ESG (ambientais, sociais e de governança). A taxonomia garantirá mais segurança, facilitando a comparação de projetos e reduzindo riscos associados à incerteza regulatória. Estudos revelam a dimensão do desafio. A transição para uma economia de baixo carbono requer um volume significativo de investimentos.
A estimativa é que o Brasil precisará de R$ 1 trilhão até 2030 para atingir suas metas climáticas, de acordo com o Fórum Econômico Mundial. Outras projeções, como as do Boston Consulting Group e da McKinsey, sugerem cifras que chegam a R$ 15 trilhões até 2050, abrangendo setores como energia, bioeconomia e infraestrutura verde.
A questão central é: como garantir que esse dinheiro seja aplicado corretamente? A resposta passa por três frentes principais: regulamentação robusta para evitar distorções, mecanismos financeiros inovadores que facilitem o acesso a recursos sustentáveis e um compromisso real por parte do setor privado de aderir à transição verde. O sucesso depende da capacidade de harmonizar os interesses de diferentes setores e de se adaptar à dinâmica do mercado global.
Taxonomia verde é muito mais do que um conceito técnico; representa uma inflexão fundamental na forma como a economia mundial se organiza para lidar com a crise climática. Um termo que se firma como elemento essencial do vocabulário econômico e ambiental. Sua crescente presença nos debates reflete não apenas a urgência climática, mas também a transformação estrutural dos mercados e a reconfiguração dos fluxos de capital rumo a uma economia sustentável.
O Brasil, com seu potencial imenso na bioeconomia, pode estar à frente dessa revolução. Mas isso exigirá escolhas ousadas, regulações bem estruturadas e um engajamento verdadeiro para transformar a sustentabilidade em regra e não mais em exceção.