A nossa língua materna é muito mais do que uma forma de comunicação. Molda a nossa identidade e os nossos pontos de vista. Cultiva os nossos laços emocionais com a nossa cultura e a nossa comunidade. Guarda a história das conexões da humanidade, bem como o futuro da resiliência da humanidade.
Por essas razões, o mundo celebra todos os anos, no dia 21 de fevereiro, o Dia Internacional da língua materna, celebrando a importância de proteger e promover a diversidade linguística e o multilinguismo.
Para celebrar a ocasião, perguntamos a comunidade da Global Voices – um grande time poliglota! – para responder uma pergunta simples: o que sua língua materna significa para você? As respostas que recebemos foram íntimas e honestas, variando de realçar a beleza da língua em questão até detalhes sobre desafios pessoais e políticos relacionados ao uso da língua.
‘Me prende a um sentimento de pertencimento’
Rami Alhames é o gerente de tradução árabe do Projeto Global Voices Lingua. Ele chamou a língua árabe de “o coração da minha identidade”:
It carries the echoes of my ancestors, the warmth of family gatherings, and the richness of my culture. Through its poetic verses and intricate calligraphy, I feel a deep connection to my heritage…It shapes my thoughts, dreams, and expressions, grounding me in a sense of belonging. Every word feels like a bridge to my roots, a reminder of who I am and where I come from.
Carrega os ecos dos meus antepassados, o aconchego das minha reuniões familiares, e a riqueza da minha cultura. Através de seus versos poéticos e caligrafia intrincada, sinto uma profunda conexão com a minha hereditariedade… molda os meus pensamentos, sonhos e expressões, me prende a um sentimento de pertencimento. Cada palavra forma uma ponte com minhas raízes, um lembrete de quem eu sou e de onde venho.
Para a tradutora Ghaydaa Alnakhal, árabe como língua materna é motivo de orgulho:
Arabic language is a treasure that everyone likes to discover. It’s the language of the Holy Quran; every single word has a meaningful connotation. I’m proud of my mother language, as wherever I meet foreign people they ask me to teach them some Arabic words.
A língua árabe é um tesouro que todos gostam de descobrir. É a linguagem do sagrado Alcorão; cada palavra tem uma conotação significativa. Tenho orgulho da minha língua materna, já que, onde quer que eu encontre estrangeiros, me pedem para lhes ensinar palavras em árabe.
Escritora e tradutora Elisa Marvena disse que passou a apreciar o espanhol sua língua nativa de novas formas, graças à experiência de viver fora de seu país de origem:
Living in Germany, my mother tongue has also become the entry point to many friendships, a space where I feel safe, comfortable, and most “myself.” It led me to fully understand, intimately, why foreign communities anywhere in the world tend to stay close and spontaneously build what some negatively call “ghettos.”
Vivendo na Alemanha, minha língua materna se tornou um ponto de introdução para muitas amizades, um espaço onde me sinto segura, confortável, mais ‘eu mesma’. Isso levou-me a compreender plena e intimamente, por que as comunidades estrangeiras em qualquer parte do mundo tendem a permanecer próximas e a construir espontaneamente o que alguns chamam negativamente de ‘guetos’.
Além disso, Elisa disse, que passar o espanhol para seu filho trilíngue ira garantir que ele se mantenha conectado com sua família estendida. O mesmo é verdade para a outra língua importante na vida do seu filho: o árabe, que é a língua que o pai do seu filho fala.
Elmira Lyapina, que é uma escritora e tradutora da Global Voices, descreve de forma semelhante sua língua materna, o tártaro, como uma ferramenta para formar laços com outras pessoas:
As part of the Turkic language family, Tatar gives me a sense of home when speaking with older generations of Turkish or Azerbaijani communities. Sharing similar names for cultural and historical concepts, as well as traditional dishes, it connects me more deeply with Central Asian culture. It also gives me a sense of relatedness to Arabic and Persian cultures, due to the borrowings from or through these languages.
Como parte da família das línguas turcas, o tártaro me passa um sentimento de casa quando falo com gerações mais velhas das comunidades turcas ou do Azerbaijão. Compartilhando nomes semelhantes de conceitos históricos e culturais, bem como pratos tradicionais me conecto mais profundamente à cultura da Ásia Central. Também me entrega uma sensação de relação próxima as culturas árabes e persas, devido aos empréstimos vindos dessas línguas.
E o tradutor Tchahenewa Israel, cuja língua materna é tupuri, explicou como a língua o ancora:
Ma langue est l’identité par laquelle je m’identifie et je me reconnais dans la société.
Minha língua é a identidade pela qual eu me identifico e me reconheço perante a sociedade.
‘Tornarei a minha língua soberana’
O malgaxe pode ser a língua oficial de Madagáscar, mas a pressão econômica para favorecer línguas mundialmente dominantes é forte. Liva Andriamanantena, tradutora da equipe de língua malgaxe do Global Voices Lingua, reconhece o risco que isso representa para a sua língua materna:
The Malagasy language faces a major problem because many Malagasy citizens do not know how to write it correctly and moreover in schools, the French language is used much more in educational programs. As a translator, I strive to revitalize this rare and precious language because I hope it will one day become one of the most sought-after languages in the field of translation.
A língua malgaxe enfrenta um grande problema porque muitos cidadãos malgaxes não sabem escrevê-la corretamente e, além disso, nas escolas, a língua francesa é muito mais utilizada nos programas educativos. Como tradutora, esforço-me por revitalizar esta língua rara e preciosa, porque espero que um dia se torne uma das línguas mais procuradas no meio da tradução.
Miora St Elimphanie Radifera, uma das gerentes responsáveis pela equipe de tradução da língua malgaxe, falou sobre como o malgaxe é “um pedaço de casa que eu carrego comigo, não importa onde eu vá”:
And though I love learning other languages, none could replace it — it’s unique, beautiful, and an inseparable part of me. As we say in Malagasy, “Andrianiko ny teniko, ny an’ny hafa koa feheziko!” (I will make my language sovereign; as for the languages of others, I will master them and make them mine as well).
E embora eu adore aprender outras línguas, nenhuma poderia substituí-la; é única, linda e uma parte inseparável de mim. Como dizemos em malgaxe, ‘Andrianiko ny teniko, ny an’NY hafa koa feheziko!’ (Tornarei a minha língua soberana; e às línguas dos outros, irei dominá-las e torná-las minhas também).
O malgaxe está entre as comunidades linguistas mais ativas na Global Voices, resultado da paixão coletiva que o time de contribuidores sente por sua língua materna. Imanoela Fifaliana, editora e tradutora da equipe de linguistas do malgaxe, demonstra essa paixão em sua resposta:
My greatest wish is to share this beauty with others, to see more people discover the richness of our language and culture, so that it can continue to thrive for generations to come. Tiako ny teniko! (I love my language)
Meu maior desejo é compartilhar essa beleza com outros, ver mais pessoas descobrirem a riqueza da nossa língua e cultura, para que possa continuar a prosperar por gerações. Tiako ny teniko! (Eu amo minha língua)
E Raveloaritiana Mamisoa Isabelle, tradutora, brevemente resumiu a conexão que sente com o malgaxe: “Minha língua materna é a minha identidade, a minha vida, uma ponte para minha cultura e hereditariedade.”
Realidades injustas, relações complicadas
Por mais que a língua possa ser uma fonte de beleza, também pode ser empregada para fins perversos. Através da historia e ainda hoje, pessoas no poder buscam erradicar línguas nativas e substituí-las por suas próprias, a fim de enfraquecer conexões culturais, cortar laços entre comunidades e causar conflito, tudo para subjugar os povos e roubar seu trabalho e recursos.
A língua materna da escritora Candice K. Stewart é o patois jamaicano. Ela falou sobre sua experiência pessoal com a armamentização da língua como legado do colonialismo britânico
I can remember being corrected and scolded as a child the second I uttered any bit of Patwa. In the moment, the real effects were not noticed. However, many years later, it is evident. Many of us have to figuratively fight for our lives to speak Patwa, write it, and understand the varied sounds. This is all thanks to what we were brainwashed to believe — that to speak Patwa and communicate with it is indicative of being primitive and uneducated. I am forever grateful for local linguists and champions of Patwa who continue to push Patwa.
Eu me lembro de ser corrigida e repreendida quando criança no segundo que pronunciei um pouco de patoá. Naquele momento os reais efeitos não foram notados. No entanto, muitos anos depois, é evidente. Muitos de nós figurativamente tivemos que lutar por nosso direito de falar patoá, de escrever, e entender seus sons variados. Tudo isso graças a lavagem cerebral que sofremos para acreditar que falar e se comunicar por meio do patoá é um indicativo de ser primitivo e sem educação. Sou eternamente grata aos linguistas e defensores do patuá, que continuam a carregar a língua.
Quando historias pessoais, culturais e políticas colidem, o termo “língua materna” pode se tornar difícil de entender. A editora associada Ameya Nagarajan comentou que não tinha certeza de como responder a pergunta:
Is it your mother’s language? And her mother’s language? Then it’s Gujarati, which I do not speak at all and cannot understand. But what people mean, in India, is the “family” language which is usually your father’s language. Then it’s Tamil, which I speak more or less okay, mainly because I’ve grabbed every opportunity as an adult to do it and get better. I can barely read or write. Is it the language you think and dream in? That you grew up speaking? That your parents and grandparents spoke to you when you were a child? Then it’s English.
Qual a língua da sua mãe? É a língua da mãe dela? Então é guzerate, que eu não falo de jeito nenhum e não consigo entender. Mas o que as pessoas querem dizer, na Índia, é a língua da sua “família” que normalmente significa a língua do seu pai. Então é tâmil, que eu falo mais ou menos bem, principalmente porque eu abracei toda oportunidade que tive como adulta para melhorar. Mal consigo ler ou escrever. É a linguagem em que pensa e sonha? Que você cresceu falando? Que os seus pais e avós falaram com você quando era criança? Então é inglês.
Ngo Ngimbous Fidèle Juliette, gerente de tradução francesa, falou sobre sua relação com a língua bassa e como sempre procura dar seu melhor com as habilidades que tem:
Le bassa représente mes origines. Cette langue a bercé mon enfance. Malheureusement, bien que codifiée, je n’ai pas eu la chance d’apprendre à la lire ni à l’écrire. Je le fais en tâtonnant.
A língua bassa representa as minhas origens. Essa língua me abraçou na infância. Infelizmente, embora seja codificada, não tive a chance de aprender a ler ou escrevê-la. Faço por tentativa e erro.
E Arzu Geybullayeva, escritora e editora que cobre o sul do Cáucaso e a Turquia, desenha uma distinção entre as ideias de “origens” e “raízes” no que se refere a suas línguas maternas azerbaijani e russo:
I think, in the grand picture, it is the only thing that connects me to my origins. I would refrain from using the word roots because I have come to learn that roots can be planted elsewhere and hence, I don’t see it as a connection to the roots but more to my country of origin. It remains the language which sometimes has the best word to explain a situation or a state or an emotion.
Penso que, em seu todo, é a única coisa que me conecta as minhas origens. Eu me abstenho de usar a palavra raízes porque aprendi que raízes podem ser plantadas em outros lugares, por isso, eu não vejo como uma ligação com as minhas raízes, mas sim com o meu país de origem. Continua sendo a língua que as vezes tem a melhor palavra para explicar uma situação ou estado, ou uma emoção.
Palavras e expressões idiomáticas únicas
Cada língua é um universo em si, com vocabulário e frases criativas únicas que não são facilmente traduzidas. Iryna Tiper, gerente de traduções ucraniana, falou sobre a melodia, as nuances e riquezas da língua ucraniana.
One of my favorite words is затишок (zatyshok), meaning a cozy, warm place — it perfectly reflects the sense of home and belonging that Ukrainian gives me.
Uma das minhas palavras favoritas é затишок (zatyshok), significa um lugar quente e aconchegante, reflete perfeitamente o senso de casa e pertencimento que o ucraniano me dá.
A escritora Prudence Nyamishana disse que sua língua materna Rukiga a conecta aos seus ancestrais.
Some of the phrases and proverbs in Rukiga reveal how generations passed on wisdom and traditions. My favourite proverb is “Nyantahurira akambukira omu bwato bwibumba” — he who doesn’t heed a warning will eventually try to cross a sea in a clay boat.
Algumas das frases e provérbios em rukiga revelam como as gerações transmitiram sabedoria e tradição. Meu proverbio favorito é “Nyantahurira akambukira omu bwato bwibumba” — aquele que não se atentar aos avisos eventualmente tentara atravessar o mar em um barco de barro.
Sanjib Chaudhary, escritor e gerente de tradução nepalês, descreve como sua língua nativa Tharu Oriental foi moldada pelos ambientes onde o povo tharu viveu:
I think and dream in my mother language… Tharus have lived in the southern plains of Nepal for thousands of years and they have unique relation with the forests, wild animals and nature which reflects in the language, unique words, phrases and idioms.
Eu penso e sonho na minha língua materna… o povo tharu vive nas planícies do sul do Nepal há milhares de anos e tem uma relação única com a floresta, animais selvagens e a natureza isso se reflete na linguagem, palavras, frases e expressões idiomáticas únicas.
E o escritor Abhinash Das ofereceu sua palavra preferida em assamês, uma das línguas oficiais da índia:
I feel so good and happy expressing and communicating in my mother language… I am sharing one of my favourite Assamese words: “ভালপোৱা” which means “love” in English.
Eu me sinto bem e feliz e expressando e me comunicando na minha língua materna… estou compartilhando uma das minha palavras em assames favoritas: “ভালপোৱা” que significa ‘amor’ em inglês.
‘A única que falo do coração’
Nossa lingua materna é fundamental para a forma como nos relacionamos com nos mesmos e com os outro, sejam eles próximos ou distantes. Isto é verdade para o editor francófono da África Subsaariana, Jean Sovon, cuja língua de origem é jeje:
Ma langue maternelle représente une richesse immatérielle que je partage en commun avec les membres de ma communauté ou ethnie. Je suis fier de parler cette langue et de voir d’autres personnes s’y intéresser.
Minha língua materna representa uma riqueza intangível que compartilho com os membros da minha comunidade ou meu grupo étnico. Tenho orgulho de falar minha língua e ver outras pessoas interessadas nela.
Ioana Dobre, gerente de tradução romena, disse que o romeno “me conecta com minha infância, família, primeiros amigos e representa grande parte de quem sou”, enquanto Gabriela García Calderón Orbe, gerente de tradução do espanhol, resume de forma sucinta sua relação com o espanhol: “é como eu me comunico com todos e como adquiro conhecimento.”
Para Marisa Petricca, gerente de tradução do italiano, sua língua materna prove um vinculo especial com as artes.
The Italian language can also be considered a universal language: every musician can understand even two or three words in Italian, finding them on the pentagram, like allegro, maestoso, etc. The Italian language identity often embodies disciplines like humanities, music, poetry, literature, and art that our ancestors made. And for me, these are the most important values of my language, actually.
A língua italiana pode também ser considerada uma linguagem universal: todos músicos podem entender uma ou duas palavras em italiano, está no pentagrama, como allegro, maestoso etc. A identidade da língua italiana muitas vezes incorpora disciplinas como humanidades, música, poesia, literatura e arte que nossos ancestrais fizeram. E para mim, esses são os mais importantes valores da minha língua, de fato.
Ela também apontou a conexão com as outras línguas românicas, algo que a tradutora Ursu Ilona-Alexandra também destacou sobre sua língua materna, o romeno, acrescentando: “minha língua materna significa tanto origem quanto originalidade para mim.”
A condição da nossa língua materna estar entrelaçada como nossa própria identidade foi uma resposta comum que recebemos da comunidade Global Voices. Talvez a tradutora Maria Dabija tenha resumido perfeitamente quando disse:
Ma langue maternelle est la seule que je parle avec le cœur.
A minha língua materna é a única que falo de coração.