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Vozes do mar: por que reconhecer as mulheres pescadoras é vital para adaptar nosso litoral à crise climática

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Vozes do mar: por que reconhecer as mulheres pescadoras é vital para adaptar nosso litoral à crise climática

O artigo abaixo é o segundo da parceria inédita do The Conversation Brasil com uma das instituições jornalísticas mais conceituadas do mundo na divulgação de informações embasadas sobre os maiores desafios humanos, ambientais e geopolíticos da atualidade: o Pulitzer Center, que desde 2006 apoia jornalistas e produz reportagens e relatórios aprofundados sobre questões de relevância global. Nessa parceria, publicamos artigos sobre os efeitos das mudanças climáticas na América Latina, e o que ainda pode ser feito para minimizá-las. Os textos, preparados por pesquisadores brasileiros da rede de colaboradores do TCB, analisam temas propostos por investigações feitas por jornalistas do Pulitzer Center, que hoje atua em 14 países, incluindo o Brasil. A desigualdade dos impactos da crise climática, as consequências já irreversíveis do aquecimento dos oceanos, os riscos de tragédias socioambientais provocadas pela insistência nos combustíveis fósseis, e o crescente desmatamento das florestas tropicais em nome de um desenvolvimento econômico que já não se sustenta estarão entre os temas abordados. No artigo de hoje, assinado pela Professora da da UNIFESP Leandra Gonçalves, temos a descrição das conclusões encontradas por um estudo inédito e sensível – o Vozes do Mar -, que analisou a importância das mulheres no sustento de milhares de famílias que vivem da pesca artesanal no litoral do Brasil, e como isso tem consequências no potencial de adaptação dessa atividade econômica às mudanças climáticas.


Quando pensamos em pesca no Brasil, quase sempre imaginamos homens no mar. Mas a pesca de pequena escala compartilha esse espaço com muitas mulheres — embora ainda invisibilizadas. Em nossa pesquisa com o projeto Vozes do Mar, ouvimos lideranças de diferentes regiões costeiras e encontramos um padrão: as mulheres pescadoras sustentam famílias, mantêm tradições e culturas e garantem alimento nas mesas, mas seguem sub-representadas em dados públicos, políticas e espaços de tomada de decisão.

Esse apagamento tem custo alto. Ele enfraquece a adaptação climática nas comunidades costeiras, justamente onde a mudança do clima já se faz sentir no dia a dia.

O clima já mudou

As entrevistas mostraram um cotidiano marcado por marés e estações “fora do lugar”, calor mais intenso, chuvas fortes e enchentes e queda da disponibilidade de espécies, antes facilmente pescadas. A percepção de mudança é clara e nasce de vozes do território: quem coleta, pesca, limpa e vende, sente primeiro os impactos.

O artigo ressaltou que ainda assim, muitas mulheres não associam essas mudanças a impactos de gênero mais severos. Embora a literatura mostre que mulheres tendem a ser mais afetadas por eventos extremos e por choques na renda. Nosso estudo também indicou uma subvalorização do papel econômico das pescadoras — especialmente na segurança alimentar das famílias e da comunidade. Esses achados reforçam a urgência de trazer o conhecimento ecológico local das mulheres para o centro da construção de políticas públicas e de gestão costeira.

Três barreiras se repetem nos relatos: viés social, desatenção por quem toma as decisões e pressões ambientais e econômicas que negligenciam a pesca artesanal. Muitas pescadoras não possuem barco nem atuam longe da costa — e por isso, não raramente, ficam fora das estatísticas e dos programas de apoio social. Sem reconhecimento, o acesso a direitos, benefícios e financiamento climático não chega onde deveria. O resultado é um círculo vicioso: baixa visibilidade gera menos apoio público, que por sua vez fragiliza a capacidade de adaptação e resiliência climática.

O que funciona (segundo elas)

Ilustração: Carol Gaessler.

A boa notícia é que as próprias pescadoras oferecem um roteiro de ação:

● Ponte entre o “de cima” e o “de baixo”: combinar medidas de gestão costeira com processos participativos e decisão compartilhada, valorizando os saberes locais desde o diagnóstico até a implementação.

● Apoio público: simplificar cadastros e documentação; reconhecer formalmente o trabalho das mulheres ao longo de toda a cadeia (da coleta à comercialização); e direcionar fundos de adaptação para iniciativas lideradas por comunidades.

● Educação, legado e redes: fortalecer educação ambiental e cultura oceânica nas escolas e nas colônias; apoiar redes de cooperação entre mulheres; e abrir espaços para que as novas gerações queiram permanecer na pesca, com dignidade e renda.

● Colaboração multissetorial: articular gestão costeira, saúde, assistência social, turismo, conservação e pesquisa para responder a eventos extremos e pressões de mercado de maneira integrada.

Por dentro da pesquisa

Para essa pesquisa ouvimos nove lideranças da pesca reconhecidas por suas comunidades, de diferentes trechos do litoral. Usamos uma abordagem qualitativa com análise temática reflexiva para entender motivações, percepções de mudança e caminhos de futuro. Os resultados apontaram claramente para a necessidade de políticas inclusivas que elevem as vozes das pescadoras e redesenhem a governança do oceano sob uma lente de gênero e de justiça costeira.

Por que isso importa agora

O Brasil é um hotspot de mudanças climáticas. Isso significa que a velocidade e a intensidade das transformações ambientais aqui são particularmente preocupantes — e atingem em cheio quem vive do mar em pequena escala. Ignorar as mulheres pescadoras é abrir mão de uma bússola essencial para navegar essa crise. Integrar seu conhecimento ecológico local, reconhecer seu trabalho e garantir assento nas decisões não é “perfumaria”: é estratégia de adaptação eficaz e de segurança alimentar para milhões de pessoas nas cidades costeiras.

A pesquisa Vozes do Mar nasceu de um edital do British Council que estimulou ciência colaborativa. Foi construída em parceria com o Instituto Ayni e com a Liga das Mulheres pelo Oceano, entre outros atores. Mas, essas sementes, que foram plantadas por essas lideranças comunitárias não pararam de ecoar em nossas mentes. E seguem nos estimulando a pensar iniciativas de colaboração.

COP30: um palco para vozes costeiras

Ilustração: Carol Gaessler.

Em novembro, Belém sediará a COP30, um marco para a diplomacia climática global e uma oportunidade inédita de colocar o oceano e os territórios costeiros e amazônicos no centro da agenda. Mas para que isso ocorra, é preciso que as vozes locais não sejam novamente silenciadas.

Recentemente, nosso grupo de pesquisa GovOceano em parceria com o Instituto Procomum publicou o policy briefing “5 mensagens locais para uma agenda global: oceano, biodiversidade e clima na COP30”. O documento reuniu contribuições de comunidades do Marajó (PA), Ilhabela (SP), Ilha Diana (SP) e Canavieiras (BA), e alerta: decisões internacionais não podem ser descoladas das experiências locais.

Entre as mensagens centrais, estão:

● construir espaços inclusivos e paritários de decisão,

● superar práticas extrativas de pesquisa,

● aprofundar a colaboração entre ciência e comunidades,

● e reconhecer que as mulheres e povos tradicionais enfrentam riscos desproporcionais diante das crises climática e oceânica.

Essas vozes foram também registradas em vídeo.

Para eles, o que governos e instituições podem fazer já:

  1. Contar certo para cuidar melhor: exigir dados desagregados por gênero em registros e monitoramentos; reconhecer oficialmente coleta e beneficiamento como trabalho pesqueiro.

  2. Financiar a adaptação liderada por comunidades: fundos que cheguem às mulheres, com burocracia amigável e acompanhamento técnico.

  3. Ouvir de forma contínua: criar conselhos costeiros com paridade e processos de co-gestão que valorizem o saber de quem está na praia, no mangue e no mercado.

  4. Educar para o oceano que queremos: investir em cultura oceânica e formação de professores nas redes municipais e estaduais.

  5. Proteger o território vivo: combinar medidas de ordenamento (defesos, áreas de exclusão para a pesca industrial onde caiba) com fiscalização justa e apoio social nos períodos de restrição.

Mulheres pescadoras sabem ler o mar. E agora, diante da COP30, é urgente que sua experiência e sua resistência façam parte das respostas globais. Quando suas vozes entram nas políticas, toda a sociedade ganha: mais resiliência climática e um oceano com futuro para todos e todas.

Desconexão de poder: o silêncio de quem mais sente

Ilustração: Carol Gaessler.

A invisibilidade das mulheres pescadoras manifesta-se no que se conhece por desconexão de poder — uma situação em que os mais afetados pelas mudanças climáticas e pelas pressões ambientais têm pouco ou nenhum poder para influenciar as decisões que os impactam diretamente. É uma forma de injustiça que silencia os corpos e saberes que deveriam ser protagonistas das políticas costeiras.

A desconexão de poder não é algo novo. Já foi relatado para diferentes temas. Um exemplo recente deste fenômeno vem do estudo sobre o derramamento de óleo que atingiu o Nordeste e Sudeste brasileiros em 2019, onde falta de poder efetivo das comunidades afetadas — e o fato de que quem tinha poder não arcar com os custos da degradação — atrasou ações adequadas e aprofundou o desastre ambiental. Essa desconexão de poder impediu que as vozes das comunidades costeiras fossem ouvidas em tempo e em condições de mitigar os danos de forma eficaz.

Se essa desconexão persistir na COP 30 em Belém — ou seja, se as vozes costeiras, amazônicas e pesqueiras não forem integradas aos processos decisórios — corremos o risco de repetir o mesmo erro em escala global. Decisões sem raiz territorial correm o risco de desconsiderar realidades locais e agravar desigualdades. É preciso que as decisões sejam territorializadas, inserindo as vozes de quem vive o impacto de forma direta, sobretudo das mulheres pescadoras, para garantir governança legítima, eficaz e justa.

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